Home Noticias Quero Ser Jump Mater AFF
05 | 09 | 2010
Quero Ser Jump Mater AFF
Dom, 12 de Julho de 2009 21:27

Quero ser Jump Master AFF 

 

Se você pensa em seguir o caminho da instrução em nosso esporte, seguem algumas dicas valiosas e um depoimento do que tem sido minha experiência nesse sentido. 

 

Por Márcio Rossi

 

 

Introdução

 

À medida que os saltos se acumulam na caderneta, muitos pára-quedistas sentem-se atraídos pela possibilidade de profissionalização no esporte. O apelo é quase irresistível, afinal trabalhar saltando é uma daquelas raras chances de dedicar-se a uma atividade que pode dar prazer e ainda ser remunerado por isso. Enfim, soa como a resposta perfeita ao conflito que surge quando se deseja saltar mais e gastar menos. 

 

Profissionalizar-se não é nada simples e remete a outras questões sobre o que fazer e como se qualificar para fazê-lo bem. Trabalhar com instrução é uma das alternativas que se apresenta ao atleta já a partir do nível intermediário.

 

Quando comecei a pensar em instrução no pára-quedismo, eu tinha uma visão simplista de que o JM nada mais era que um pára-quedista experiente que saltava com alunos. Nada poderia estar mais longe da verdade. Embora a experiência no esporte seja mesmo um fator importante, aprendi que para trabalhar com instrução é necessário muito mais.

 

Neste ano resolvi começar nesse caminho e achei importante já nesta fase compartilhar minha vivência até o momento e quem sabe assim, contribuir para que outros atletas com o mesmo interesse sigam o caminho correto.

 

As Normas da CBPq; Jump Master virou Mestre de Salto

 

A Confederação Brasileira de Pára-quedismo, no Capítulo V de seu Código Esportivo, estabelece as “Normas Gerais para Habilitação de Mestres de Salto e Instrutores (ASL, AFF ou de Salto Duplo)”.

 

Após uma revisão ocorrida no início de 2006, a CBPq aboliu de seu texto o termo “Jump Master”, substituindo-o pelo equivalente em português, Mestre de Salto. Mas como Jump Master e JM ainda são termos de uso corrente na comunidade pára-quedista brasileira, serão utilizados neste artigo ao invés de Mestre de Salto, correspondendo, entretanto, à mesma coisa.

 

Idioma à parte, houve diversas mudanças importantes. Uma delas na hierarquia da instrução AFF, que foi simplificada ao eliminar as licenças de Monitor e Avaliador. Assim, a hierarquia atual ficou apenas com 3 níveis: Jump Master, Instrutor e Diretor de Curso, respectivamente. Cada licença envolve exigências e atribuições específicas conforme níveis crescentes de responsabilidade. Aqui é importante ressaltar que muito embora a licença de Avaliador não exista mais, a função continua regulada pelo Código. 

 

Outra significativa alteração ocorreu nos pré-requisitos para seleção de candidatos ao curso de formação de JM AFF. Atletas categoria D já podem candidatar-se em cursos de formação e, se considerados aptos, recebem a Licença de JM AFF, que os habilita a atuar sob a supervisão de um IAFF (Instrutor AFF). 

 

Como a coisa funciona -  curso Teórico e Avaliação

 

Embora a mudança dos pré-requisitos possa sugerir que teria ficado mais fácil graduar-se JM, a realidade é bem diferente. Os rigorosos requisitos de avaliação permanecem os mesmos; para preenchê-los o candidato deve preparar-se intensa e previamente.

 

O atleta que deseja tornar-se JM AFF deve procurar a sua Federação para informar-se sobre pré-requisitos básicos e calendário de cursos. O curso pode, grosso modo, ser dividido em duas partes: teoria e avaliação, ambas ministradas por um Instrutor designado como Avaliador pelo Diretor de Curso ou pelo próprio Diretor.

 

Na primeira parte, o candidato recebe uma carga pesada de informações em sala de aula e faz muitos exercícios. São abordadas técnicas didáticas, questões legais, teoria AFF, métodos de avaliações, etc. Essa fase requer algo em torno de 4 dias, dependendo da carga horária diária e rendimento dos candidatos.

 

Na fase seguinte, com a participação de falsos alunos, o candidato deve demonstrar sua capacidade de desempenhar corretamente todas as tarefas de um JM AFF: ministrar o curso teórico AFF, preparar e equipar aluno para o salto, saltar nas posições de JMI e JMII e fazer o debriefing. O falso aluno nas atividades envolvendo salto é sempre o Instrutor avaliador, nas de solo pode ser um pára-quedista graduado.

 

Nada impede que o curso teórico e as avaliações ocorram em dias consecutivos. Mas engana-se quem pensa ser possível, começando do zero, formar-se JM em uma semana. Talvez por isso os índices de reprovação na avaliação prática sejam altos.

 

O caminho do aprendizado

 

Durante os quatro dias do carnaval deste ano, estive fechado em uma sala no hangar da Vera Cruz, em Boituva. Ali, juntamente com três amigos, iniciava minha caminhada no sentido de aprender a ensinar pára-quedismo. Era o curso teórico de Jump Master AFF, que até então formava Monitores AFF. O curso foi ministrado pelo Ricardo Pettená da Azul do Vento.

 

O Monitor era algo tipo um estagiário de Jump Master. A função envolvia as mesmas tarefas, exceto preparação do salto e o salto propriamente dito. No início o Monitor atuava sob supervisão de Instrutores AFF, mas aos poucos adquiria autonomia para tarefas específicas, como equipar aluno, fazer radio, aplicar revisões (check list), ministrar sala de aula e briefing de graduação. Assim, permitia-se ao atleta interessado em tornar-se JM uma oportunidade de familiarizar-se com a instrução dentro de um ambiente controlado, sem os riscos inerentes à atividade de queda livre.

 

Muito embora a licença de Monitor tenha sido extinta pela CBPq, eu prossigo no meu estágio incentivado pelos excelentes resultados que vi colher meu amigo Vitinho desde que ele iniciara em janeiro de 2005 um caminho semelhante. O trabalho de Monitoria fazia a ponte perfeita entre o Curso Teórico e a Avaliação AFF, desenvolvendo as habilidades necessárias para se tornar Jump Master dentro de um sistema de aprendizado contínuo e gradativo.

 

Dessa forma o Vitinho acabou tornando-se uma referência para a instrução teórica, além de apoiar os Instrutores da Azul do Vento nas atividades de solo com alunos. Em meados de agosto ele estava pronto para submeter-se à avaliação final. Como essas avaliações envolvem simulações de saltos do nível III do AFF, ele me convidou para formar dupla com ele. Mesmo sem ter me preparado para a avaliação, vi ali uma oportunidade interessante de treinamento. Lá fomos nós.

 

A Avaliação e Sistema de pontuação

 

A avaliação é dividida em 3 Seções. A primeira testa o candidato em tarefas de sala de aula e preparação. A Seção II contempla atividades do salto, do embarque ao pouso (rádio) e na Seção III refere-se ao debriefing.

 

O sistema de pontuação é muito bem elaborado e é o mesmo aplicado pela USPA (associação norte americana de pára-quedismo), de onde vem o método AFF. Cada seção possui alguns itens a serem avaliados. A pontuação média de cada uma varia de 0 a 4, em pontos inteiros. O candidato começa com 4, que é nota máxima. A cada erro perde um ponto e assim sucessivamente até chegar a zero.

 

Matemática à parte, existe uma lógica muito coerente na pontuação, refletindo com fidelidade o nível  de preparação e conseqüente desempenho do avaliado no salto. Os pontos vão se acumulando a cada atividade com uma meta a ser alcançada dentro de uma quantidade máxima de tentativas, sendo 05 tentativas da Seção I e 06 para as demais.

 

Aqui vale à pena detalhar um pouco como funciona a avaliação da queda livre. A cada salto o candidato pode ganhar até 4 pontos. O mínimo de pontos acumulados para ser aprovado é de 12. Portanto, se o candidato ficar com uma média de 2, ele atinge a meta e é aprovado nessa seção, que costuma ser a mais crítica. Parece fácil. Ora, bastaria conseguir nota máxima em 3 saltos e já sairia aprovado! Porém, em toda a história dessa avaliação ninguém nunca conseguiu essa proeza. Os “fenomenais” precisaram de pelo menos 4 saltos. A grande maioria termina o sexto salto sem atingir os 12 pontos. Mas por que é tão difícil...? A seguir eu conto mais sobre o “dirt dive”

 

Dirt dive – montando num boi bravo

 

É mais ou menos por aí. Para saber em tão poucos saltos se o candidato está apto a saltar com um aluno de verdade, o Avaliador precisa simular as piores condições possíveis. Assim, desde o solo o candidato é confrontado com uma série de adversidades cujo objetivo é testar se ele está atento e sabe controlar a situação. É importante ressaltar que, embora até possa parecer,  o objetivo do Avaliador não é reprovar o candidato; é testá-lo ao limite para certificar-se de que está apto a ser responsável pela vida de outra pessoa.

 

Sim, parece meio dramático, mas essa é a principal tarefa de um JM: garantir que o aluno, por pior que possa ser, sobreviva ao salto.  E para cumprir essa missão não basta saber voar a posição, isso é o mínimo. É necessário saber tomar decisões rápidas e assertivas em um ambiente com elevadas doses de estresse. Durante um dirt dive, várias dessas decisões são exigidas e por isso é essencial que o candidato tenha desenvolvido anteriormente o condicionamento necessário; não há tempo para dilemas ou hesitação, a reação deve ser imediata ou comprometeria a segurança do aluno, caso em que a nota do salto é zero, independentemente do desempenho em outras fases da queda livre ter sido formidável.

 

Secundariamente existe ainda o objetivo didático: o aluno deve aprender e o JM deve dar-lhe chances para tanto. Se um candidato a JM tomar os gripes do falso aluno em uma simulação de nível III porque ele girou um pouco, já fica reprovado por não ter concedido ao aluno a chance de se corrigir e aprender. Essa é a pegada: não existe uma reação padrão para cada caso. O JM deve ponderar e reagir instantaneamente da melhor forma, balanceando chances de aprendizado com segurança e controle do salto.

 

Por isso o falso aluno repassa todo o tipo possível de erro em cada etapa, do solo ao pouso. Em cada um dos nossos saltos, o Ricardo Pettená interpretava um personagem diferente. Do check de equipamento no solo até recolher o pára-quedas após o pouso era como se ele fosse outra pessoa e nós precisávamos supervisioná-lo constantemente em cada detalhe. Embora os personagens possam ser engraçados se lembrados depois – tinha o militar que só falava no exército, o caipira que morria de medo e por aí vai – durante a interpretação a situação era muito tensa para os avaliados.

 

Comigo ocorreu em um salto que, após metade do tempo de queda livre, estava tão sobrecarregado com o estresse de todas as situações vivenciadas até então que simplesmente não conseguia mais tomar decisões: fazia a coisa errada e no momento seguinte me sobrecarregava ainda mais ao reconhecer que não era aquilo que deveria fazer. O resultado final é que, além de merecer uma nota 1, eu queria desaparecer e sair correndo sem olhar pra trás. Depois do salto eu estava arrasado, cheguei a pensar que esse negócio de JM não era para mim. Mas eu continuei.

 

O sucesso da preparação

 

Após dois saltos eu tinha poucas chances de ser aprovado. Muito embora o objetivo inicial fosse mesmo o de treinar, o desempenho fraco me desanimava. Ainda assim continuei até o quarto salto e, felizmente, a cada tentativa minha nota melhorava, sendo que o último salto foi excelente. Mesmo reprovado, me enchi de entusiasmo. Quando tentar novamente terei condições muito melhores de sair como JM ao final. Aprendi muito durante os dois finais de semana de avaliação. 

 

Mas eu gostaria de chamar a atenção outra história; o Vitinho demonstrou em todas as seções da avaliação que a bagagem de seus 18 meses de monitoria lhe deixou muito, mas muito melhor preparado.

 

Ele se sobressaiu desde as atividades de solo. Tanto que já havia acumulado os pontos das seções pertinentes na terceira tentativa. Em queda livre não foi diferente. Reações rápidas e corretas lhe garantiam uma boa média, sendo que no quinto salto já concluíra os pontos necessários para aprovação. 

 

Foi uma festa. Ele precisava apenas de uma nota 2 naquele salto, mas estava cheio de receios, ainda mais quando o Ricardo iniciou o debriefing em um tom de voz que sugeria a necessidade de outro salto. Tudo encenação, desfeito o suspense e anunciada a aprovação, todo o staff da Azul do Vento entrou na sala fazendo algazarra e dando os parabéns ao novo Jump Master. 

 

Poucas vezes me emocionei tanto na minha vida. Conheci o Vitinho quando éramos categoria AI; nos tornamos amigos e, como membros do 100 Noção Skydive Team a gente está sempre se encontrando com o resto da turma pra celebrar o skydive. Vê-lo triunfar ao final de um longo caminho foi como compartilhar o sucesso de um irmão. É muito bom ver o esforço sendo coroado com sucesso. 

 

Conclusão

 

Então, se você quer chegar lá, estude, pratique e tente ficar ao lado de quem sabe. Jump Masters não são feitos em cursos de uma semana. É preciso saltar, estudar e principalmente, vivenciar o ambiente de instrução. Ser Jump Master é um desafio; antes de encará-lo, esteja pronto.

 
Notícias

Quero ser Jump Master AFF 

 

Se você pensa em seguir o caminho da instrução em nosso esporte, seguem algumas dicas valiosas e um depoimento do que tem sido minha experiência nesse sentido. 

 

Por Márcio Rossi

 

Leia mais...
Enquete
Qual Campeonato você gostaria que a FECAP realizasse?
 
Usuários Online
Nós temos 1 visitante online